Disparate especular

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Disparate especular

O que há de bizarro neste episódio acontecido em 1803 é, sobretudo, a sua natureza extraordinariamente simétrica.

Ana amava e sabia-se amada tanto por Carlos como por Manuel, irmãos gémeos até no segredo que cada um guardava sobre o seu amor por Ana. Não podendo escolher um e outro, à triste alma dividida sobrou a dor redobrada de rejeitar outro e um – com a inevitável consequência de lançar luz sobre aquele equívoco fraternal... Ora essa luz cegou Carlos a tal ponto que, acto contínuo, quis “exigir satisfação” ao irmão. A caminho desse propósito amargo, encontrou na rua um Manuel ofuscado pela mesma luz e a ponto igual. Sem palavra, duas luvas direitas escarraram o chão.

Cedo e fria chegou a manhã combinada: junto ao cemitério, foram seis os passos divergentes (e dados com raiva) que precederam o estrépito duplamente assustador de disparos simultâneos. Sob uma revoada de pássaros sobressaltados, dois rostos de espanto lívido fitaram-se mutuamente. Cada irmão teve então o mesmo reflexo de utilizar a força que lhe restava nos joelhos para retroceder tropegamente ao ponto de partida. A confirmação quase impossível ali jazia na relva: duas balas ainda quentes, amalgamadas uma na outra.

Teoria do absoluto

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Teoria do absoluto

O fogo fraco ao canto da cabana projecta as seis sombras esguias da família de cócoras em roda no chão. Ao centro, a mãe deposita uma tigela grande cheia e os olhos de Abasi brilham. Espera a sua vez, antecipando o prazer da refeição no semblante já satisfeito dos irmãos mais velhos. Retira com os dedos uma porção generosa de pasta de farinha e feijão, usa o lábio inferior para a aparar da mão e então mastiga feliz à boca cheia. Hoje é dia de festa e, nas manhãs seguintes a dias destes, sabe bem acordar só quando é já dia quente. Em manhãs seguintes assim, os sonhos duram mais e acabam bem.

A chicha

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A chicha

Quem visita o talho do Sr. Mamede não adivinha nas suas feições algo rudes um gosto pela leitura (muito menos uma relação de amor-ódio com os livros). Mas não é raro algum cliente mais erudito surpreender-se com citações memorizadas à vírgula, quase sempre interpostas no diálogo com refinada ironia. Se o cliente curioso, contudo, decide inquirir sobre a origem das passagens, aí o rosto do talhante endurece e o manejar das facas parece enfurecer-se um pouco. A resposta vem em tom de fecho de conversa: “Isso já não sei.”

É nos sábados à noite que o Sr. Mamede vem para o talho entreter-se com a safra do último périplo pelas livrarias. Serve-se do cutelo para eliminar capas e páginas iniciais (incluindo introduções e prefácios). Uma faca de desossar revela-se apropriada para remover o que resta das lombadas. Com a máquina de cortar fiambre, apara eventuais rodapés e cabeçalhos demasiado informativos. Copia então cuidadosamente o título de cada obra para a página que sobrou no topo, usando o lápis das contas. As “peças” assim preparadas e limpas de gordura vão para o frigorífico, onde permanecerão até que não reste memória da identidade dos autores.

A arca de Ádila Sesimbra

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A arca de Ádila Sesimbra

Na varanda da Biblioteca Nacional, fumo um cigarro e as mãos tremem-me. A revoada de pensamentos que me castiga traz-me à memória a primeira ocasião em que, fascinado, ouvi falar de Ádila Sesimbra, nas aulas de Português do 9º grau. Nascida em 89, começou a escrever desde muito cedo e profusamente, mas foram poucas as coisas que se deu ao trabalho de tentar publicar. Quando morreu em 2036 (o seu delito assumido eram duas caixas diárias de bombons recheados), conheciam-se dela apenas dois ou três pequenos volumes de poesia – todavia mais do que suficientes para, no espaço de uma década, terem revelado ao país já órfão de si a estatura duma gigante literária. Em vida, mantivera uma relação de fidelidade recíproca com um velho computador portátil. Depressa, pois, a atenção da Biblioteca se virou para o disco duro enterrado nos fígados dessa peça de museu com teclas. Adquirido o dispositivo, haveria de calhar-me a mim (para renovado fascínio) a tarefa de meticulosamente recuperar e imprimir o seu precioso conteúdo. Que poderei argumentar em minha defesa? Ando sobrecarregado de trabalho, durmo mal. A Joana zangou-se comigo. Num lapso estremunhado e assassino, formatei o disco errado.

Virgínia

Este microconto foi publicado na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo, e também traduzido em italiano por Stefano Valente no Il Sogno del Minotauro.

Virgínia

Nesse dia a meio da guerra, eu sabia que a guerra estava a meio e também que iria encontrar-te ali, junto àquela parte do rio que passa (e passará sempre) perto de onde moravas. Trazias os bolsos cheios de pedras e a única coisa que fiz foi tirar-tas dos bolsos, uma por uma. Sorriste quando conseguiste atirar a última delas mais longe do que eu, para dentro da água tão calma. E sabíamos ambos que uma traição assim ao curso das coisas só pode persistir como um ramo estéril fora do tempo dos outros.

Manhã emersa

Este microconto foi lido por Luís Ene no programa de rádio Rua do Imaginário e publicado na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Manhã emersa

Já em novo Douglas sonhava esse sonho, nem bom nem mau, normalmente à hora incerta da madrugada em que o sol ainda não saíra do fundo do mar. Agitando o sossego submerso, um cobertor vasto feito de algas e espongas desintegrava-se devagar, descobrindo o flanco de aço dum navio tombado no leito frio. Sentindo-se então, espantosamente, navio hibernado que acorda, Douglas ascendia rumo ao chamamento trémulo da aurora, até explodir simultâneo com o sol na respiração das ondas, numa festa de barcos ressuscitados e felizes buzinas navais.

É sempre bom sinal quando se conhece alguém e se desata a falar de sonhos. E assim foi numa festa de Páscoa, em que Maisie ouviu gulosamente aquele peculiar relato onírico e soltou uma gargalhada colorida: “Tu achas que as pessoas são como navios que afundam depois da infância!” Pouco introspectivo mas munido dum bom sentido prático, Douglas soube dar os passos necessários para desposar Maisie.

***

Quarenta anos de vida em comum dão azo a curiosos sincronismos e, hoje, quando Maisie sonha esse sonho matinal em que aguarda qualquer coisa incerta frente ao mar, sabe que acordará sempre antes do fim, quando o braço semi-adormecido de Douglas lhe enlaçar a cintura.

A Página

Este conto foi publicado na Letrário sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A Página

Acredito na existência (algures, talvez fora do espaço físico) d’A Página, a maior aspiração de qualquer pessoa que escreva. É uma página interminável, sem linhas nem margens, onde repousa para sempre, rigorosamente, tudo o que de muito honesto alguma vez foi humanamente escrito.

Diz-se haver quem tenha lá santificado livros inteiros, como se diz que há lá simples frases e versos soltos, meras associações de palavras até! Bom, “meras” não, nunca: duas palavras escritas podem merecer o seu espaço n’A Página, mas então devem ter sido o que de mais sincero uma alma escreveu em toda a sua vida aqui na Terra. Duas palavras seguidas, registadas na mais pura contracção do coração, de entre os biliões que mantêm viva toda uma existência. Em certos casos não será, pois, descabido dizer que, paradoxalmente, obra publicada e extensa serviu ao autor tão-somente como treino para certo apontamento esquecido de diário que, esse sim, ganhou direito a jamais deixar de existir.

Ninguém sabe ao certo se se trata duma superfície plana e infinita ou duma superfície esférica, que são as duas únicas maneiras de Ela não ter margens e, ao mesmo tempo, ser uma superfície suave, sem vincos no papel imenso (uma forma toroidal seria por certo demasiado absurda para semelhante fim). A minha suposição pessoal (mas isto é especulação pura, roçando a heresia, perdoado me seja o atrevimento) é a de que se trata duma superfície esférica sem quaisquer espaços em branco. Então, sempre que alguma coisa nova ganha o direito a ser inscrita lá, abre-se o espaço novo necessário – o que leva a que aumente continuamente o diâmetro do já enorme globo e a que este vá tendendo para exibir a tal superfície plana e infinita (sem que porém alguma vez possa chegar a tanto).

E quem decide quais os livros, parágrafos, afinal quais as palavras que irão ter o seu lugar impresso nesta Página? Talvez não possa falar-se exactamente em “decisão”, ou pelo menos o meu entendimento não alcança Quem ou o Quê por último decide. Sei no entanto que as coisas começam da forma que passo a descrever.

O Conselho do Merecimento é constituído pelos espíritos de todos quantos já viram o seu esforço escritor humano imortalizado na superfície d’A Página. Este Conselho é convocado para a análise de cada espólio produzido em vida humana já extinta.

Todos os conselheiros e conselheiras se sentam à volta duma mesa também ela enorme, na forma duma circunferência (de raio necessariamente crescente; confesso que este corolário me inspirou a suposição sobre a geometria d’A Página propriamente dita). Portanto um estrado imenso de madeira que se fecha sobre si mesmo. Desconhece-se o processo, inquestionavelmente metafísico, pelo qual o único exemplar original da obra neófita consegue naquele momento desdobrar-se, multiplicar-se por tantos originais quantos os conselheiros existentes. Cada conselheiro recebe assim um original genuíno (qualquer que seja a sua constituição: plaquinhas de barro, manuscritos, impressões caseiras a jacto de tinta) e portanto infuso de todo o amor e raiva que lá tenham sido postos pelo autor nos próprios momentos de autoria.

Os conselheiros iniciam então a sua Tarefa, que pode demorar minutos, meses ou décadas do nosso tempo terreno. Cigarros, cigarrilhas e charutos, cachimbos acendem-se a toda a volta da mesa de trabalho. Empregados rigorosamente seleccionados, formados e fardados esvaziam cinzeiros com perícia e em silêncio, substituem bolsas de tabaco; quando solicitados, limpam cachimbos (há aqueles conselheiros que preferem limpar os próprios cachimbos), recolhem restos de cigarrilhas já esfumadas na tarefa de pensar. Sobre a circunferência da mesa do Conselho forma-se uma outra circunferência, esta de fumo, perfeitamente paralela e permanente.

Chegado o fim do esforço leitor e analítico do conselheiro que tenha demorado mais (infelizmente não terminam todos ao mesmo tempo, levando a que aconteçam grandes aborrecimentos e quezílias), podemos perceber quão insondável é o tal processo de “decisão” a que aludi. De facto, acontece apenas que, num momento, o último leitor arruma o último texto lido e, no momento seguinte, a mesa está vazia. Perfeitamente deserta de todos e de tudo. Nem os próprios conselheiros (agora outra vez livres) têm conhecimento do que aconteceu – se um par de palavras, ao menos, ganhou o espaço desejado n’A Página. Eles limitaram-se a ler, com o interesse mais genuíno que é possível ter, e só na convocatória seguinte poderão (se tiverem boa memória) perceber se efectivamente mais um se lhes juntou ao redor da mesa.