Virgínia

Este microconto foi publicado na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo, e também traduzido em italiano por Stefano Valente no Il Sogno del Minotauro.

Virgínia

Nesse dia a meio da guerra, eu sabia que a guerra estava a meio e também que iria encontrar-te ali, junto àquela parte do rio que passa (e passará sempre) perto de onde moravas. Trazias os bolsos cheios de pedras e a única coisa que fiz foi tirar-tas dos bolsos, uma por uma. Sorriste quando conseguiste atirar a última delas mais longe do que eu, para dentro da água tão calma. E sabíamos ambos que uma traição assim ao curso das coisas só pode persistir como um ramo estéril fora do tempo dos outros.

Manhã emersa

Este microconto foi lido por Luís Ene no programa de rádio Rua do Imaginário e publicado na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Manhã emersa

Já em novo Douglas sonhava esse sonho, nem bom nem mau, normalmente à hora incerta da madrugada em que o sol ainda não saíra do fundo do mar. Agitando o sossego submerso, um cobertor vasto feito de algas e espongas desintegrava-se devagar, descobrindo o flanco de aço dum navio tombado no leito frio. Sentindo-se então, espantosamente, navio hibernado que acorda, Douglas ascendia rumo ao chamamento trémulo da aurora, até explodir simultâneo com o sol na respiração das ondas, numa festa de barcos ressuscitados e felizes buzinas navais.

É sempre bom sinal quando se conhece alguém e se desata a falar de sonhos. E assim foi numa festa de Páscoa, em que Maisie ouviu gulosamente aquele peculiar relato onírico e soltou uma gargalhada colorida: “Tu achas que as pessoas são como navios que afundam depois da infância!” Pouco introspectivo mas munido dum bom sentido prático, Douglas soube dar os passos necessários para desposar Maisie.

***

Quarenta anos de vida em comum dão azo a curiosos sincronismos e, hoje, quando Maisie sonha esse sonho matinal em que aguarda qualquer coisa incerta frente ao mar, sabe que acordará sempre antes do fim, quando o braço semi-adormecido de Douglas lhe enlaçar a cintura.

A Página

Este conto foi publicado na Letrário sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A Página

Acredito na existência (algures, talvez fora do espaço físico) d’A Página, a maior aspiração de qualquer pessoa que escreva. É uma página interminável, sem linhas nem margens, onde repousa para sempre, rigorosamente, tudo o que de muito honesto alguma vez foi humanamente escrito.

Diz-se haver quem tenha lá santificado livros inteiros, como se diz que há lá simples frases e versos soltos, meras associações de palavras até! Bom, “meras” não, nunca: duas palavras escritas podem merecer o seu espaço n’A Página, mas então devem ter sido o que de mais sincero uma alma escreveu em toda a sua vida aqui na Terra. Duas palavras seguidas, registadas na mais pura contracção do coração, de entre os biliões que mantêm viva toda uma existência. Em certos casos não será, pois, descabido dizer que, paradoxalmente, obra publicada e extensa serviu ao autor tão-somente como treino para certo apontamento esquecido de diário que, esse sim, ganhou direito a jamais deixar de existir.

Ninguém sabe ao certo se se trata duma superfície plana e infinita ou duma superfície esférica, que são as duas únicas maneiras de Ela não ter margens e, ao mesmo tempo, ser uma superfície suave, sem vincos no papel imenso (uma forma toroidal seria por certo demasiado absurda para semelhante fim). A minha suposição pessoal (mas isto é especulação pura, roçando a heresia, perdoado me seja o atrevimento) é a de que se trata duma superfície esférica sem quaisquer espaços em branco. Então, sempre que alguma coisa nova ganha o direito a ser inscrita lá, abre-se o espaço novo necessário – o que leva a que aumente continuamente o diâmetro do já enorme globo e a que este vá tendendo para exibir a tal superfície plana e infinita (sem que porém alguma vez possa chegar a tanto).

E quem decide quais os livros, parágrafos, afinal quais as palavras que irão ter o seu lugar impresso nesta Página? Talvez não possa falar-se exactamente em “decisão”, ou pelo menos o meu entendimento não alcança Quem ou o Quê por último decide. Sei no entanto que as coisas começam da forma que passo a descrever.

O Conselho do Merecimento é constituído pelos espíritos de todos quantos já viram o seu esforço escritor humano imortalizado na superfície d’A Página. Este Conselho é convocado para a análise de cada espólio produzido em vida humana já extinta.

Todos os conselheiros e conselheiras se sentam à volta duma mesa também ela enorme, na forma duma circunferência (de raio necessariamente crescente; confesso que este corolário me inspirou a suposição sobre a geometria d’A Página propriamente dita). Portanto um estrado imenso de madeira que se fecha sobre si mesmo. Desconhece-se o processo, inquestionavelmente metafísico, pelo qual o único exemplar original da obra neófita consegue naquele momento desdobrar-se, multiplicar-se por tantos originais quantos os conselheiros existentes. Cada conselheiro recebe assim um original genuíno (qualquer que seja a sua constituição: plaquinhas de barro, manuscritos, impressões caseiras a jacto de tinta) e portanto infuso de todo o amor e raiva que lá tenham sido postos pelo autor nos próprios momentos de autoria.

Os conselheiros iniciam então a sua Tarefa, que pode demorar minutos, meses ou décadas do nosso tempo terreno. Cigarros, cigarrilhas e charutos, cachimbos acendem-se a toda a volta da mesa de trabalho. Empregados rigorosamente seleccionados, formados e fardados esvaziam cinzeiros com perícia e em silêncio, substituem bolsas de tabaco; quando solicitados, limpam cachimbos (há aqueles conselheiros que preferem limpar os próprios cachimbos), recolhem restos de cigarrilhas já esfumadas na tarefa de pensar. Sobre a circunferência da mesa do Conselho forma-se uma outra circunferência, esta de fumo, perfeitamente paralela e permanente.

Chegado o fim do esforço leitor e analítico do conselheiro que tenha demorado mais (infelizmente não terminam todos ao mesmo tempo, levando a que aconteçam grandes aborrecimentos e quezílias), podemos perceber quão insondável é o tal processo de “decisão” a que aludi. De facto, acontece apenas que, num momento, o último leitor arruma o último texto lido e, no momento seguinte, a mesa está vazia. Perfeitamente deserta de todos e de tudo. Nem os próprios conselheiros (agora outra vez livres) têm conhecimento do que aconteceu – se um par de palavras, ao menos, ganhou o espaço desejado n’A Página. Eles limitaram-se a ler, com o interesse mais genuíno que é possível ter, e só na convocatória seguinte poderão (se tiverem boa memória) perceber se efectivamente mais um se lhes juntou ao redor da mesa.

O Fado Morgado

Este microconto foi publicado na Minguante nº 12 dedicada ao tema "fado", sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

O Fado Morgado

Mais uma vez, a semana de trabalho de José Morgado acaba tarde. No ecrã do computador, o relatório de contas regressa a uma pasta amarela e o sistema operativo avisa que vai dormir. Ao lado, a pequena moldura com o retrato da filha recorda-lhe que não passarão juntos este fim-de-semana; ela faz anos no domingo e haverá festa em casa da mãe. Os olhos aguam enquanto o polegar acaricia a bochecha rosada sob o vidro ("Dez anos, leguminho!"). Sob a moldura, a prenda há muito escolhida: um exemplar d'A Fada Oriana que irá por certo ajudar a menina rosada da foto a compreender certas coisas essenciais.

Mas hoje é sexta-feira e, dez andares abaixo, a cidade acende-se e convida. Elevador, átrio, "Bom fim-de-semana, Sr. Ferreira," "Para si também, Dr. Morgado." Madrugadas de sábado adentro, no bar Coco Peru, José gosta de aparecer em palco de costas para o público, sob os primeiros acordes de Maria Solidão e uma neve prateada de confetti. O vestido esguio como um vaso de ouro abre-se espinha abaixo num V estreito, orlado de tule em forma de asas de fada que as luzes quentes fazem de todas as cores.

O ogre alquimista

Este microconto foi publicado na Minguante nº 11 dedicada ao tema "o desejo", sob o pseudónimo Carlos Tijolo, e destacado no Bibliotecário de Babel.

O ogre alquimista

Abel sonhava. Era um hoplita grego a caminho da beira-mar, para os exercícios matinais da sua unidade. Ao longe, miúdos nus terminavam uma sessão de ginástica e apressavam-se a apagar da areia quaisquer marcas susceptíveis de perturbar os homens adultos. Como sempre, a fantasia secreta de Abel era um rapazinho que, disfarçadamente, voltava a sentar-se na areia mesmo antes de correr atrás dos colegas. Subitamente, uma cãibra no braço musculado, dissolvendo o sono raso e aquela praia de há vinte e cinco séculos – e novamente a enfermaria, o cheiro a éter, a dor libertando-se da anestesia no braço gordo. Pelos anos fora, perguntara-se muitas vezes se teria apenas nascido numa época demasiado infeliz para a cor bizarra dos seus desejos. Então certo dia visitara-o na cadeia um homem novo, de feições delicadas e vagamente familiares, o qual lhe falara sem ódio mas usando amiúde uma palavra, essa, agudamente familiar a Abel. O seu próprio inferno, sabia-o desde esse reencontro, só lhe dera descanso nos instantes ferozes em que o semeara dentro de alguém. E daí a decisão por aquele implante enterrado na carne – semeando nada dentro de si, ventania sonolenta varrendo frágeis desenhos de areia.

Casa em branco

Este microconto foi publicado na Minguante nº 10 dedicada ao tema "vícios" e na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Casa em branco

Edgar está orgulhoso do trabalho da equipa que liderou ao longo do último ano. Hoje trouxe uma cópia do resultado para casa e agora aprecia-o na companhia da esposa. No écran de alta-definição, Paul Henreid tenta convencer Humphrey Bogart a ajudar a mulher que ambos amam a escapar de Casablanca: "Sei bastante mais sobre si do que suspeita." Bogart desvia o olhar pensativamente e leva à boca o palito que o acompanha como um amuleto na maioria das cenas.

"Como conseguiram fazer desaparecer o fumo?..."

Edgar bebe um gole de água mineral e sorri complacente. "Dentro de vinte anos, pouca gente saberá que alguma vez houve ali fumo."

Notas de ânimo leve

Este microconto foi publicado na Minguante nº 8 dedicada ao tema "a leveza", sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Notas de ânimo leve

1

Miguel acabou de ler de manhã o livro que começara também de manhã. Procurou a lista telefónica, na lista o número e no número alguma coragem. Da editora não chegaram sequer a dizer-lhe que não (“Liga para aqui cada doido, valha-nos Deus!” Clique, som contínuo. Som intermitente). Inquirira com delicadeza se aos senhores editores seria possível providenciarem e remeterem-lhe por correio o mesmo volume, mas em branco... Suspirou. Dum livro assim, era-lhe importante conhecer o peso da tinta.

2

Ângelo é um escritor de última geração que recorre a métodos ao mesmo tempo moderníssimos e estranhamente primitivos (ou antes – muitos dirão – espantosamente desadequados). Começa sempre por imprimir a laser uma página perfeitamente negra. Com finas lixas, x-actos e agulhas, procede então à remoção de toda a tinta em excesso. Liberta assim o texto que permanecia, desde o início, aprisionado nas trevas. Um raspão mal medido sobre uma vírgula pode arruinar-lhe horas de trabalho. Escreve pouco, naturalmente.