Sou um pássaro agora

Este microconto foi publicado sob o pseudónimo Carlos Tijolo na Veredas, e também traduzido em italiano por Stefano Valente no Il Sogno del Minotauro.

Sou um pássaro agora

Dizem que estou doente, mas não creio. É preciso ter estado na minha pele nos últimos anos para entender como o meu comportamento é afinal bem racional. Uma rapariga farta-se de ser a eterna gorduchinha que nunca tem namorado. De jurar que até come pouco, mas todos acharem que empanzina às escondidas. Admito até uma certa obsessão com o peso, descuidos ocasionais, mas insisto: uma juventude como a minha e, a dada altura, a escala da balança mede fealdade em quilogramas e pouco mais.

Curioso não recordar ter vindo ontem para o hospital. Não gosto que me tragam para aqui. Sedam-me e aproveitam para me enfiar comida adentro por um tubo. Noto logo. Depois dão-me papinhas e vigiam-me. Volto para casa sempre gorda e feia, como antes. E contudo hoje há qualquer coisa diferente: o despertador tocou e senti-me leve como num sonho. Subi à balança ali ao canto e o ponteiro nem mexeu. Irrita-me é que o espelho não funcione. E o silvo contínuo deste despertador estúpido que não se cala... E esta gente de bata que irrompe pelo quarto adentro e me ignora – alguém me indica um espelho que funcione, por favor?

Disparate especular

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Disparate especular

O que há de bizarro neste episódio acontecido em 1803 é, sobretudo, a sua natureza extraordinariamente simétrica.

Ana amava e sabia-se amada tanto por Carlos como por Manuel, irmãos gémeos até no segredo que cada um guardava sobre o seu amor por Ana. Não podendo escolher um e outro, à triste alma dividida sobrou a dor redobrada de rejeitar outro e um – com a inevitável consequência de lançar luz sobre aquele equívoco fraternal... Ora essa luz cegou Carlos a tal ponto que, acto contínuo, quis “exigir satisfação” ao irmão. A caminho desse propósito amargo, encontrou na rua um Manuel ofuscado pela mesma luz e a ponto igual. Sem palavra, duas luvas direitas escarraram o chão.

Cedo e fria chegou a manhã combinada: junto ao cemitério, foram seis os passos divergentes (e dados com raiva) que precederam o estrépito duplamente assustador de disparos simultâneos. Sob uma revoada de pássaros sobressaltados, dois rostos de espanto lívido fitaram-se mutuamente. Cada irmão teve então o mesmo reflexo de utilizar a força que lhe restava nos joelhos para retroceder tropegamente ao ponto de partida. A confirmação quase impossível ali jazia na relva: duas balas ainda quentes, amalgamadas uma na outra.

Teoria do absoluto

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Teoria do absoluto

O fogo fraco ao canto da cabana projecta as seis sombras esguias da família de cócoras em roda no chão. Ao centro, a mãe deposita uma tigela grande cheia e os olhos de Abasi brilham. Espera a sua vez, antecipando o prazer da refeição no semblante já satisfeito dos irmãos mais velhos. Retira com os dedos uma porção generosa de pasta de farinha e feijão, usa o lábio inferior para a aparar da mão e então mastiga feliz à boca cheia. Hoje é dia de festa e, nas manhãs seguintes a dias destes, sabe bem acordar só quando é já dia quente. Em manhãs seguintes assim, os sonhos duram mais e acabam bem.

A chicha

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A chicha

Quem visita o talho do Sr. Mamede não adivinha nas suas feições algo rudes um gosto pela leitura (muito menos uma relação de amor-ódio com os livros). Mas não é raro algum cliente mais erudito surpreender-se com citações memorizadas à vírgula, quase sempre interpostas no diálogo com refinada ironia. Se o cliente curioso, contudo, decide inquirir sobre a origem das passagens, aí o rosto do talhante endurece e o manejar das facas parece enfurecer-se um pouco. A resposta vem em tom de fecho de conversa: “Isso já não sei.”

É nos sábados à noite que o Sr. Mamede vem para o talho entreter-se com a safra do último périplo pelas livrarias. Serve-se do cutelo para eliminar capas e páginas iniciais (incluindo introduções e prefácios). Uma faca de desossar revela-se apropriada para remover o que resta das lombadas. Com a máquina de cortar fiambre, apara eventuais rodapés e cabeçalhos demasiado informativos. Copia então cuidadosamente o título de cada obra para a página que sobrou no topo, usando o lápis das contas. As “peças” assim preparadas e limpas de gordura vão para o frigorífico, onde permanecerão até que não reste memória da identidade dos autores.

A arca de Ádila Sesimbra

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A arca de Ádila Sesimbra

Na varanda da Biblioteca Nacional, fumo um cigarro e as mãos tremem-me. A revoada de pensamentos que me castiga traz-me à memória a primeira ocasião em que, fascinado, ouvi falar de Ádila Sesimbra, nas aulas de Português do 9º grau. Nascida em 89, começou a escrever desde muito cedo e profusamente, mas foram poucas as coisas que se deu ao trabalho de tentar publicar. Quando morreu em 2036 (o seu delito assumido eram duas caixas diárias de bombons recheados), conheciam-se dela apenas dois ou três pequenos volumes de poesia – todavia mais do que suficientes para, no espaço de uma década, terem revelado ao país já órfão de si a estatura duma gigante literária. Em vida, mantivera uma relação de fidelidade recíproca com um velho computador portátil. Depressa, pois, a atenção da Biblioteca se virou para o disco duro enterrado nos fígados dessa peça de museu com teclas. Adquirido o dispositivo, haveria de calhar-me a mim (para renovado fascínio) a tarefa de meticulosamente recuperar e imprimir o seu precioso conteúdo. Que poderei argumentar em minha defesa? Ando sobrecarregado de trabalho, durmo mal. A Joana zangou-se comigo. Num lapso estremunhado e assassino, formatei o disco errado.

Virgínia

Este microconto foi publicado na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo, e também traduzido em italiano por Stefano Valente no Il Sogno del Minotauro.

Virgínia

Nesse dia a meio da guerra, eu sabia que a guerra estava a meio e também que iria encontrar-te ali, junto àquela parte do rio que passa (e passará sempre) perto de onde moravas. Trazias os bolsos cheios de pedras e a única coisa que fiz foi tirar-tas dos bolsos, uma por uma. Sorriste quando conseguiste atirar a última delas mais longe do que eu, para dentro da água tão calma. E sabíamos ambos que uma traição assim ao curso das coisas só pode persistir como um ramo estéril fora do tempo dos outros.

Manhã emersa

Este microconto foi lido por Luís Ene no programa de rádio Rua do Imaginário e publicado na Veredas, sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Manhã emersa

Já em novo Douglas sonhava esse sonho, nem bom nem mau, normalmente à hora incerta da madrugada em que o sol ainda não saíra do fundo do mar. Agitando o sossego submerso, um cobertor vasto feito de algas e espongas desintegrava-se devagar, descobrindo o flanco de aço dum navio tombado no leito frio. Sentindo-se então, espantosamente, navio hibernado que acorda, Douglas ascendia rumo ao chamamento trémulo da aurora, até explodir simultâneo com o sol na respiração das ondas, numa festa de barcos ressuscitados e felizes buzinas navais.

É sempre bom sinal quando se conhece alguém e se desata a falar de sonhos. E assim foi numa festa de Páscoa, em que Maisie ouviu gulosamente aquele peculiar relato onírico e soltou uma gargalhada colorida: “Tu achas que as pessoas são como navios que afundam depois da infância!” Pouco introspectivo mas munido dum bom sentido prático, Douglas soube dar os passos necessários para desposar Maisie.

***

Quarenta anos de vida em comum dão azo a curiosos sincronismos e, hoje, quando Maisie sonha esse sonho matinal em que aguarda qualquer coisa incerta frente ao mar, sabe que acordará sempre antes do fim, quando o braço semi-adormecido de Douglas lhe enlaçar a cintura.