O tempo das descobertas

O meu conto "O tempo das descobertas" foi publicado na Palavrar nº 7 dedicada ao tema "corpo aos pecados", no âmbito de uma colaboração com a Fábrica do Terror. O número completo da revista está disponível online e em PDF.

O tempo das descobertas

O meu conto "O tempo das descobertas" foi publicado na Fábrica do Terror.

O ferpume

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

O ferpume

Quão mal compreendida é a percepção dos odores... A Abel, então, jamais ocorrera debruçar-se sobre semelhante matéria. A respeito de cores, que não odores, tinha uma noção (memória de guaches nos tempos do liceu) de estas poderem dispôr-se num círculo, revelador de curiosas complementaridades. Azul-turquesa com amarelo-claro dava verde-limão, que é como quem diz o oposto de magenta – e assim infinitamente, para qualquer tom que apetecesse misturar no tempo em que não havia coisas sérias para pensar. Mas nunca lhe ocorrera que também os cheiros pudessem traduzir-se em combinações duns quantos aromas primários; que até no olfacto se ocultassem oposições e quadraturas... Bom, pelo menos até hoje, em que desde manhã cedo tudo lhe cheira (com uma precisão de discernimento de que não se sabia capaz) ao contrário. E é a coberto da meia-noite – contrariado por uma repulsa que mais não é do que um reflexo aprendido, mas impelido por um jejum de muitas horas que o corrói – que se dirige às traseiras do prédio e abre o mais tentador contentor de lixo.

Sou um pássaro agora

Este microconto foi publicado sob o pseudónimo Carlos Tijolo na Veredas, e também traduzido em italiano por Stefano Valente no Il Sogno del Minotauro.

Sou um pássaro agora

Dizem que estou doente, mas não creio. É preciso ter estado na minha pele nos últimos anos para entender como o meu comportamento é afinal bem racional. Uma rapariga farta-se de ser a eterna gorduchinha que nunca tem namorado. De jurar que até come pouco, mas todos acharem que empanzina às escondidas. Admito até uma certa obsessão com o peso, descuidos ocasionais, mas insisto: uma juventude como a minha e, a dada altura, a escala da balança mede fealdade em quilogramas e pouco mais.

Curioso não recordar ter vindo ontem para o hospital. Não gosto que me tragam para aqui. Sedam-me e aproveitam para me enfiar comida adentro por um tubo. Noto logo. Depois dão-me papinhas e vigiam-me. Volto para casa sempre gorda e feia, como antes. E contudo hoje há qualquer coisa diferente: o despertador tocou e senti-me leve como num sonho. Subi à balança ali ao canto e o ponteiro nem mexeu. Irrita-me é que o espelho não funcione. E o silvo contínuo deste despertador estúpido que não se cala... E esta gente de bata que irrompe pelo quarto adentro e me ignora – alguém me indica um espelho que funcione, por favor?

Disparate especular

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Disparate especular

O que há de bizarro neste episódio acontecido em 1803 é, sobretudo, a sua natureza extraordinariamente simétrica.

Ana amava e sabia-se amada tanto por Carlos como por Manuel, irmãos gémeos até no segredo que cada um guardava sobre o seu amor por Ana. Não podendo escolher um e outro, à triste alma dividida sobrou a dor redobrada de rejeitar outro e um – com a inevitável consequência de lançar luz sobre aquele equívoco fraternal... Ora essa luz cegou Carlos a tal ponto que, acto contínuo, quis “exigir satisfação” ao irmão. A caminho desse propósito amargo, encontrou na rua um Manuel ofuscado pela mesma luz e a ponto igual. Sem palavra, duas luvas direitas escarraram o chão.

Cedo e fria chegou a manhã combinada: junto ao cemitério, foram seis os passos divergentes (e dados com raiva) que precederam o estrépito duplamente assustador de disparos simultâneos. Sob uma revoada de pássaros sobressaltados, dois rostos de espanto lívido fitaram-se mutuamente. Cada irmão teve então o mesmo reflexo de utilizar a força que lhe restava nos joelhos para retroceder tropegamente ao ponto de partida. A confirmação quase impossível ali jazia na relva: duas balas ainda quentes, amalgamadas uma na outra.

Teoria do absoluto

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

Teoria do absoluto

O fogo fraco ao canto da cabana projecta as seis sombras esguias da família de cócoras em roda no chão. Ao centro, a mãe deposita uma tigela grande cheia e os olhos de Abasi brilham. Espera a sua vez, antecipando o prazer da refeição no semblante já satisfeito dos irmãos mais velhos. Retira com os dedos uma porção generosa de pasta de farinha e feijão, usa o lábio inferior para a aparar da mão e então mastiga feliz à boca cheia. Hoje é dia de festa e, nas manhãs seguintes a dias destes, sabe bem acordar só quando é já dia quente. Em manhãs seguintes assim, os sonhos duram mais e acabam bem.

A chicha

Este microconto foi publicado na Veredas sob o pseudónimo Carlos Tijolo.

A chicha

Quem visita o talho do Sr. Mamede não adivinha nas suas feições algo rudes um gosto pela leitura (muito menos uma relação de amor-ódio com os livros). Mas não é raro algum cliente mais erudito surpreender-se com citações memorizadas à vírgula, quase sempre interpostas no diálogo com refinada ironia. Se o cliente curioso, contudo, decide inquirir sobre a origem das passagens, aí o rosto do talhante endurece e o manejar das facas parece enfurecer-se um pouco. A resposta vem em tom de fecho de conversa: “Isso já não sei.”

É nos sábados à noite que o Sr. Mamede vem para o talho entreter-se com a safra do último périplo pelas livrarias. Serve-se do cutelo para eliminar capas e páginas iniciais (incluindo introduções e prefácios). Uma faca de desossar revela-se apropriada para remover o que resta das lombadas. Com a máquina de cortar fiambre, apara eventuais rodapés e cabeçalhos demasiado informativos. Copia então cuidadosamente o título de cada obra para a página que sobrou no topo, usando o lápis das contas. As “peças” assim preparadas e limpas de gordura vão para o frigorífico, onde permanecerão até que não reste memória da identidade dos autores.